29 de abril de 2018

Não deixe sua côr passar em branco

ANO IV - Nº 19

JUNHO e JUNHO/90

MAIORIA FALANTE - Um serviço de combate ao racismo e à discriminação

Não deixe sua côr passar em branco

              Rio - O Censo Geral de 1980 realizado no Brasil, demonstrou que somente 5,8% da população declarou-se preta, isto contra 38,6% do total de brasileiros que se autodeclararam pardos. Dentre as causas verificadas para este fenômeno está, com certeza, a "ideologia do embranquecimento", implementada pelos mecanismos sociais, políticos, religiosos e econômicos do país, que propagam o racismo como instrumento de dominação, fazendo crer, através das mídias de massas, que o preto, ou as pessoas de origem africana, deve buscar a identidade, ou a ascendência próxima ao "branco", como foram a de expressar a sua existência e dimensão humana, na nossa tão desgraçada e empobrecida sociedade. 
             Ao longo da década passada, demonstrou-se, cientificamente, que se acentua a tendência à auto-negação, sendo que uma das pesquisas registrou mais de 130 declarações de cores diferentes entre os entrevistados, numa das mais complexas situações de fuga de uma população, da sua perspectiva de ser social, de elemento cultural e de indivíduo enquanto parte do tônus de uma Nação.
Com o objeto de interferir e de alterar esse quadro, organizações civis (IBASE, IPCN, APN, ISER, Nùcleo da Cor/IFCS, CEAP, CEAA, IPDH, CERNE e Jornal MAIORIA FALANTE, com o apoio da Fundação Ford) vêm se reunindo desde janeiro e desenvolveram a Campanha do Censo 90: "NÃO DEIXE A SUA COR PASSAR EM BRANCO - USE O BOM C/SENSO"; com lançamento nacional no dia 30 de julho, tendo continuidade durante os meses de realização do Censo Geral de 1990.
          A sua participação e de sua entidade são por demais importantes. Solicite os cartazes e outras informações, por carta ou telefone, diretamente ao Jornal MAIORIA FALANTE. 

25 de outubro de 2017

Paralelos: Visitando Sr Green/Olhos Azuis/Uma lição de discriminação

Queria fazer um paralelo de Visitando o Sr. Green com os documentários Olhos Azuis e Uma lição de discriminação. As três obras, embora em linguagens distintas - a primeira teatral enquanto a segunda e a terceira documental – retratam sobre um tema em comum: a discriminação. Separar seres humanos de acordo com características arbitrárias como orientação sexual, cor dos olhos, altura, cor da pele, gênero etc faz algum sentido para você? Bom, num primeiro momento, segregar pessoas por conta da cor dos olhos e da altura delas pode não trazer nenhuma lembrança a sua mente, contudo, e quanto a segregação baseada na cor da pele? E na orientação sexual? E no gênero? 

As primeiras teorias raciais ditas científicas datam do século XIX. Nesse contexto, a ciência ganha notoriedade na busca de se achar respostas para as perguntas primordiais: quem sou eu, onde estou e para onde vou. A divisão da humanidade em raças foi eurocêntrica, desse modo, características inferiores eram atribuídas somente aqueles não pertencentes a esse grupo. Degenerados, preguiçosos, irritadiços, teimosos, lascivos, atrasados, primitivos, exóticos, delinquentes. Esses são alguns adjetivos que """cientistas""" europeus do século XIX caracterizavam os indígenas, africanos, asiáticos e americanos.   

Quem sou? Um homem branco do século XIX - neo-imperialismo - que carrega consigo um "fardo" de levar o progresso aos povos "primitivos" e "atrasados".

Onde estou? Continente europeu do século XIX: "ciência eugênica", higiene racial, zoológicos humanos.

Para onde vou? 
"As teorias raciais apresentaram-se no século XIX como um discurso científico que buscava explicar as diferenças entre os grupos humanos, distanciando-se cada vez mais dos dogmas religiosos. Serviam como legitimadoras do imperialismo europeu, possibilitando a hierarquização da humanidade de forma que o homem branco ocupasse o topo da evolução da espécie, símbolo maior do progresso e da civilização. Essas ideias tiveram ampla difusão na sociedade europeia e não tardaram a se espalhar pelo mundo, ganhando adeptos nos Estados Unidos, Argentina, Brasil, entre outros." 





1 de agosto de 2017

28/04/2017

"Ninguém é intolerante porque quer. A intolerância nasce de um processo e justamente de uma não consciência de qual é o seu papel e de posições muito individuais."

Na última sexta, fui pela primeira vez no Sesc de São Carlos. Visitando o Sr. Green era a motivação de sair de casa naquela noite fria. Desde a animação inicial ao ver a peça na programação de abril até o momento de me sentir privilegiada por estar comprando os últimos ingressos, não sabia o quanto assistir Sérgio Mamberti e Ricardo Gelli fariam com que uma explosão dentro de mim ocorresse novamente. Esse entusiasmo é devido ao relembrar uma das minhas paixões: o teatro. Visitando o Sr. Green apresenta de modo cômico as consequências de um acidente de trânsito na vida de duas pessoas. Duas pessoas separadas por duas gerações. Duas pessoas com histórias de vida completamente diferentes. Duas pessoas que foram unidas pelo acaso ou seria sincronicidade? 
A química entre Ross e Sr. Green faz a plateia rir em diversas ocasiões, mas também a faz refletir acerca da aceitação do outro. O auge dramático ocorre por conta do desabafo de Ross: ele estava cansado de fingir ser quem não é! Ele queria poder amar sem ser censurado pela sua orientação sexual, sem que fosse motivo de piada entre seus amigos e parentes, sem que se culpasse por não atingir as expectativas alheias. As risadas iniciais provocadas pelos deboches e pelo retraimento do Sr. Green ao desabafo de Ross são gradualmente substituídas e dão lugar ao silêncio reflexivo. Estaria a plateia revendo seus conceitos?
Por vezes não enxergamos o lado do outro, a nossa miopia é alimentada por crenças preconceituosas taxadas como certas por seguirem normas religiosas, culturais ou morais. Você tem ideia de quanto sofrimento ocasiona ao rir de piadas machistas, sexistas, lgbtfóbicas? Tem noção de quantas pessoas já tiveram suas vidas arruinadas por não poderem demonstrar afeto as pessoas que amam por medo de serem reprimidas, ridicularizadas ou até mortas? O quanto alimentar o silêncio diante situações opressivas remói as pessoas aos poucos?
Link para assistir a peça na integra:
https://www.facebook.com/events/709910779187899/permalink/714871465358497/?ref=1&action_history=null

26 de julho de 2017

#5 maratonando

Minhas férias estão apenas se iniciando e já estou a todo vapor para colocar as séries em dia, ao invés de voltar a reassistir alguma ou retornar outra que não finalizei, estou apostando em coisas novas, entrei na vibe psique com Psi e terminei cara gente branca, a qual está me colocando em um buraco que quanto mais eu cavo, mais parece ter o que cavar, essa metáfora apenas quer dizer que estou me inteirando cada vez mais sobre o racismo, fazendo relações, analogias, comparações e expandindo meu horizonte, me abismando com o quanto discursos racistas são reproduzidos a todo momento e como alguns deles já são naturalizados, passa na minha mente diversos momentos em que ouvi da boca de pessoas próximas falas racistas e atitudes do mesmo tipo, a vez que estava com minha amiga branca na rua a noite e íamos em direção ao apartamento de amigos e ela parou na rua ao ver um grupo de homens negros - os quais ainda acho que nem notaram nossa presença do outro lado da rua -do outro lado da rua e fazia cara de brava para espantá-los e dizia que assim eles não viriam mexer/assaltar a gente, essa mesma amiga foi em um show de uma famosa cantora negra e disse que a cantora pessoalmente era muito feia, tinha traços marcados/exagerados e embora se esforçasse pra ser bonita, jamais o seria, o pai dessa amiga se mostrou homofóbico ao relatar repugnância pela união de um sobrinho com outro homem, a mãe dela, certamente, já foi traída diversas vezes e tem uma relação péssima com o marido que insiste manter por aparência, insiste em aturar um mala sob o mesmo teto que a maltrata, que a ridiculariza, que diz a sua filha que se ela engordar vai ficar feia, enquanto outro amigo afirmou que uma colega negra em comum não parece ser tão inteligente como é por aparentar ser sonsa e introvertida, outro se diz preocupado com as injustiças sofridas com as pessoas negras mas quando sua amiga sofre racismo, ele não oferece nenhum suporte, meu bisavó que era negro chamava seus netos - todos negros - de corvos, minha avó esfregava o indicador no pulso ao se referir a pessoas negras, minha professora de alemão disse que os alemão gostam de pessoas negras e esfregou seu indicador no pulso em vez de falar pessoas negras, um cara que conheci na internet para treinar alemão escreveu que eu não era negra e sim morena como se negra denotasse algo ruim, coisa que era contraditório a ele, uma vez que sabia alemão tão bem quanto ele que era branco e descendente de alemães, quando eu vejo negros representados na televisão, no cinema e em todas as mídias em papéis minoritários traz a sensação de que por mais que eu me esforce nunca terei um papel de protagonismo em minha vida, quando tiro fotos com amigxs e a luminosidade está baixa e aparece quase apenas meus dentes nas fotos e elxs dizem que isso é normal e a foto está ótima e eu deveria ficar feliz pelos meus dentes brancos e saudáveis, quando entro em lojas e sou confundida com vendedoras, quando a cor da minha pele traz o estigma de sensualidade fogosa, quando eu tinha receio de ser chamada por morena por não querer ser vista como apenas um corpo, quando meu cabelo é posto em questão para ser alisado, detesto ser chamada como morena, sinto nojo quando se referem a mim desse modo principalmente com um tom de voz que conota o estigma de sensualidade, quando meu amigo debocha de minha vida amorosa, quando questionam o porquê de eu ainda não ter namorado ninguém,

23 de julho de 2017

#4 desperdiçar tempo consigo mesmo

A graduação tem consumido meu tempo, minha motivação, minha vontade de estudar, meu ócio favorito: ler. Atualmente estou oficialmente de férias, o que isso significa? Que posso dormir quantas horas quiser sem me sentir uma inútil? Que posso assistir todas as séries e filmes que gostaria de assistir mas não tinha tempo? Que vou repensar as merdas que fiz nesse primeiro semestre e fazer planos de ação para não me ferrar mais? Que vou escrever com mais frequência por aqui? Que vou passar mais tempo com a minha família? O que dá para fazer em um mês? O quão significativa essas coisas que vou fazer nesse mês serão em relação ao ano todo? Preparei uma caneca cheia de chá de camomila, pois estou me sentindo ansiosa com o futuro, com o passado e não consigo viver o presente. Minha mente me traz lembranças que queria esquecer e projeções de um futuro incerto. Um dos meus nortes sempre foi o de ter uma vida saudável, prioritariamente a psicológica. Entretanto, fiquei diante um paradoxo ao perceber o quanto esse primeiro semestre do curso de psicologia testou minha saúde psicológica de diversas maneiras. Que tipo de profissional eu vou ser dentro desse sistema? O quanto ainda vou reproduzir o conhecimento do senso comum? Em 5 anos seremos capazes de fazer relatórios da vida psicológica alheia estando a nossa aos cacos? Tenho muito mais perguntas que respostas e espero continuar assim.